Ruy Carlos de Camargo Vieira
(Engenheiro Mecânico e Eletricista, Professor Emérito da
Escola de Engenharia de São Carlos, da Universidade de São Paulo,
ex-Conselheiro do Conselho Federal de Educação, e Fundador e Presidente da
Sociedade Criacionista Brasileira)
1. INTRODUÇÃO
A motivação para escrever este artigo foi a palestra
efetuada há treze anos em um Encontro de Professores da Associação Planalto
Central da Igreja Adventista do Sétimo Dia realizado em Brasília, ocasião em
que pude apresentar alguns dados que havia coletado sobre o início da Educação
Adventista nos Estados Unidos da América, cuja divulgação julguei oportuna em
nosso meio. (1)
Esses dados incluíam interessantes observações que haviam
sido apreciadas pela Conferência Geral da Igreja Adventista do Sétimo Dia
realizada em 1903, em Oakland, Califórnia, tanto em Relatório sobre a Educação Adventista
(2), apresentado em 7 de abril, pelo Pastor Edward Alexander Sutherland (então
Departamental de Educação da Associação Geral) (3), como também em “Sermão
sobre a Educação Cristã” (4) proferido em 10 de abril pelo Pastor Alonzo T.
Jones (na época Presidente da Associação da Califórnia da Igreja Adventista do
Sétimo Dia).
(5) Dentre tais observações, puderam ser destacados alguns
importantes aspectos ligados à propugnação da Educação Cristã desde os tempos
da pregação de Guilherme Miller, posteriormente trazidos à Igreja Adventista
por Ellen White, “tendo então Deus posto perante o Seu povo as bases de um
sistema de educação cristã”.
Puderam, também, ser destacadas naquelas observações,
algumas preocupações expostas pelo Pastor Sutherland referentes à educação
adventista e ao panorama geral da educação secular nos E.U.A. no início do
século vinte. Naquela época, conforme o Relatório do Pastor Sutherland, havia
cerca de 35.000 crianças e jovens na denominação, dos quais apenas 5.000
estudavam nas escolas denominacionais. Lamentava o Pastor Sutherland que então
cerca de 30.000 crianças e jovens estivessem sendo educados em instituições que
nada tinham a ver com as peculiaridades dos processos e objetivos da educação
visados pela denominação. E trazia ele àconsideração um impressionante dado: o
número dos filhos dos que tinham sido adventistas desde cinquenta anos atrás, e
que haviam deixado a Igreja, era maior do que o número de membros então
existentes ao escrever ele o seu Relatório! Dentro desse quadro, comentou ele a
importância do sistema educacional para a formação e o fortalecimento dos
quadros da Igreja, e terminou o seu Relatório com a advertência de que a
Igreja, então, de posse de tão grande luz sobre a educação cristã, não viesse a
incidir nos mesmos erros cometidos no decorrer do século dezanove pelas denominações
evangélicas nos E.U.A., que passaram a confiar mais na educação secular do que
nos princípios bíblicos que indicam os verdadeiros caminhos que levam à vida
eterna!
Ressaltou, ainda, o Pastor Sutherland em seu Relatório, que
preocupação análoga era manifesta externamente à Igreja, como verificado em
pronunciamento de um dos mais conceituados educadores americanos, Charles
William Eliot, Presidente da Harvard University, que, falando em uma reunião de
professores em New Haven, na Nova Inglaterra, em 17 de outubro de 1902, havia
destacado as necessidades a serem satisfeitas pela educação, em face das
deficiências do processo educacional então vigente. [A hoje famosa Harvard
University (bem como Yale) nada mais eram, no início, do que Escolas Bíblicas
cujo objetivo era formar ministros que levassem o
Evangelho para o mundo. Entretanto, em pouco tempo Yale e
Harvard perderam de vista sua perspectiva cristã e se tornaram escolas
seculares, meramente “clássicas”, despojadas da visão cristã da educação.]
Conforme as próprias palavras do Presidente da Harvard
University, citadas pelo Pastor Sutherland, a ineficácia da educação secular
americana podia ser comprovada pelas seguintes oito grandes frustrações
encontradas então no seio da sociedade americana, e cuja atualidade,
praticamente um século depois, não deixa de ser impressionante tanto no âmbito
dos próprios E. U. A. quanto também em nosso país:
“1. Alcoolismo (hoje abrangendo também o uso e abuso de
entorpecentes);
2. Jogos de azar (hoje incluindo loterias e similares,
patrocinados pelo próprio poder público);
3. Má gestão da coisa pública (hoje incluindo corrupção
generalizada nos órgãos públicos);
4. Crime, violência e insegurança (hoje abrangendo estupros,
seqüestros, e terrorismo);
5. Publicações degradantes (hoje se estendendo a todos os modernos
meios de comunicação);
6. Espetáculos teatrais populares (hoje invadindo os lares
mediante programações imorais da Televisão);
7. Charlatanismo médico (hoje adicionado à propaganda
enganosa de tratamentos miraculosos e medicamentos ineficazes e prejudiciais);
8. Greves trabalhistas (hoje abrangendo a violência de
outros movimentos sociais reivindicatórios).” (6)
E tentando procurar as raízes dessas mazelas sociais, o
Presidente da Harvard destacou como uma das principais causas desse panorama o
fato de que, desde a Guerra Civil Americana (terminada em 1865), a influência das
igrejas havia sensivelmente diminuído nos E. U. A.: “Seu controle sobre a educação diminuiu
distintamente. Algumas denominações parecem ater-se a uma metafísica arcaica e
a um imaginário poético mórbido [isto é, à chamada “alta crítica”].
Outras, aparentemente, tendem a refugiar-se nas cerimónias,
pompa, tradições e observâncias.” (7)
Complementando a visão histórica apresentada pelo Pastor
Sutherland, reforçada pelo Presidente da Harvard University, o Pastor Jones
destacou em seu sermão as legítimas aspirações que o mundo secular apresentava,
e mostrou que somente a educação cristã seria capaz de atendê-las. Após várias
considerações, é surpreendente que ele tenha se concentrado no tema da
necessidade de uma reforma educacional
centrada no criacionismo bíblico, em contraposição à avalanche evolucionista
surgida após 1859 com a publicação de “A Origem das Espécies” e que (segundo ele, e com nossa total concordância)
em grande parte estava sendo a responsável pelos fracassos e frustrações da
educação secular nos Estados Unidos: “Então o que se torna necessário? É
necessário um movimento de reavivamento, de reforma, hoje, como nos dias de
Lutero. E uma reforma baseada nos mesmos princípios defendidos então por Lutero.
Princípios que repudiaram o método secular, com suas raízes na Grécia clássica.
... (e puseram) a Bíblia em seu verdadeiro lugar, como fonte de toda educação.
... (Lutero) concitou o povo a não mandar seus filhos para escolas que não se
baseassem predominantemente na Bíblia. E é esta a mensagem que necessitamos
hoje, a mensagem que os Adventistas do Sétimo Dia têm a obrigação de pregar
hoje ao mundo. A esta pregação sucederá uma reforma. ... A educação será
concebida em termos do criacionismo; a Igreja que ministrará esta educação para
o mundo será uma igreja criacionista, em contraposição ao evolucionismo. ... E
quem poderá proceder desta forma senão o povo que guarda em sua vida o memorial
da criação? Por que Deus nos deu o Sábado? Uma das maiores razões pelas quais
ele nos deu o Sábado é para que fôssemos guardiões da Criação nestes dias em
que o evolucionismo está arrastando o mundo para longe de Deus. ... A Igreja
estabelecerá um sistema educacional que verdadeiramente educará todos os que
por ele passarem ... e a educação por ela provida será verdadeira educação para
hoje e para a eternidade.” (8)
Em face deste quadro, que não deixa de ser bastante atual
tanto nos E. U. A. como em nosso país, apesar de decorrido praticamente um
século, qual deveria ser a nossa mensagem precípua hoje para o mundo? Sem
dúvida é a mensagem criacionista centrada na educação cristã! Daí a motivação
para escrever este artigo sobre “Uma Visão Criacionista da Educação”, com a
esperança de que ele possa também despertar educadores cristãos a perseverar em
sua missão.
2. CONSIDERAÇÕES INICIAIS SOBRE EDUCAÇÃO
2.1. BREVES OBSERVAÇÕES ETIMOLÓGICAS E SEMÂNTICAS SOBRE EDUCAÇÃO
Para discernirmos melhor uma visão criacionista da Educação,
certamente convém procurarmos não só a etimologia desse termo, como também
explorarmos alguns aspectos semânticos pertinentes.
Educação provém do Latim, reportando-se à raiz do verbo duco,
ducere, cujo significado básico é conduzir.
Deste verbo procedem dois outros, com significados bastante
próximos – educo, educare, e educo, educere. O primeiro significa nutrir,
amamentar; educar, instruir, ensinar, amestrar. O segundo, criar, nutrir, manter, sustentar. Derivados
destes verbos são educator, a pessoa que cria, educatus, a pessoa criada, e
educatio, a ação de criar.
(9)
Uma peculiaridade da
língua portuguesa é o termo criança, para designar a pessoa que está sendo
criada, o educando por excelência! Em outras línguas criança deriva de raízes
distintas, mais ligadas à acepção de filho, como exemplificado, por exemplo, em
Espanhol niño, em Francês enfant, e em Inglês child.
A educação, semanticamente, é portanto um processo. Nele, o
educando vai sendo conduzido por um determinado caminho para atingir os
objetivos visados. A criança (ou educando) vai sendo nutrida, instruída,
mantida e sustentada – nos aspectos físico e mental.
Ressalta neste processo, evidentemente, a importância que
assume o papel do educador. É dele que, fundamentalmente, depende o processo
educativo. A secularização da educação, hoje generalizada, deve-se precipuamente
a educadores de mente secularizada, e da mesma forma a educação criacionista só
pode se tornar uma realidade mediante a atuação de educadores criacionistas
devidamente capacitados, conscientes da verdadeira natureza da controvérsia
entre as estruturas conceituais criacionista e evolucionista.
2.2. O PROCESSO EDUCATIVO
Dentre os parâmetros que influem na condução do processo
educativo, de maneira geral, situam-se as definições a serem dadas aos fatores
que nela intervêm, como por exemplo:
1. o caminho a ser percorrido,
2. os objetivos a serem visados,
3. a competência do educador para a execução de sua tarefa.
Em função das distintas estruturas conceituais adotadas
aprioristicamente para a definição do processoeducativo, poderemos ter dois
extremos excludentes – a educação cristã, de cunho criacionista, e a educação
secular, de cunho evolucionista.
• Sob o ponto de vista da educação cristã, deve-se seguir o
caminho preconizado para os israelitas ao saírem do Egito, com o objetivo de
prepará-los para serem um povo peculiar, com a missão de levar ao mundo o conhecimento
do verdadeiro Deus.
Em Deuteronómio, capítulo 6, versículos 4 a 7, fica claro o
processo que deveria ser seguido nesse caso – “estas palavras ... tu [os pais]
as inculcarás a teus filhos”.
Dão os dicionaristas para o verbo inculcar o sentido de
“apontar, citar, recomendar, propor, indicar, aconselhar”. É este um caminho no
qual o educador respeita a personalidade do educando em seus aspectos físico,
mental e espiritual!
• Na educação secular, por outro lado, tem sido adoptado um
caminho com fundamento no racionalismo, no agnosticismo, no materialismo e no
ateísmo, que tem imposto conceitos preconcebidos e estabelecido paradigmas axiomáticos
apresentados como verdades incontestes, frontalmente contrárias aos
ensinamentos bíblicos.
É este o caminho que, lamentavelmente, em termos de
sociedade, em seu extremo sabidamente leva ao autoritarismo e ao totalitarismo,
com todas as suas funestas consequências, como tem sido demonstrado pela própria
história. Haja vista o surgimento de “condutores” (seriam educadores?) como,
por exemplo, o Ducce na Itália fascista e o
Führer na Alemanha nazista, com todos os conhecidos desdobramentos a que
os respectivos processos de uma chamada “educação das massas” acabaram levando.
De forma semelhante ao ocorrido nos tempos da intolerância medieval,
lamentavelmente hoje também têm sido impostos por educadores ateístas,
materialistas e evolucionistas, dogmas supostamente científicos, que não toleram
sequer o exame da viabilidade de alternativas que considerem o elemento
sobrenatural, no processo educativo, em manifesto desrespeito à personalidade
do educando em seus aspectos físico, mental e espiritual. Nesse contexto, vale
lembrar que uma das mais notáveis definições do processo educativo é a que se encontra
no livro “Educação”, como sendo “o desenvolvimento harmónico das faculdades
físicas, intelectuais e espirituais” (10)
No contexto secular atual, em que predominam os conceitos de
evolução em todas as áreas do conhecimento humano, talvez pudesse surgir alguma
dúvida quanto ao verdadeiro sentido da palavra desenvolvimento aí utilizada.
De fato, o conceito de evolução como apresentado
modernamente, está intimamente ligado ao conceito de desenvolvimento, e
poder-se-ia ser levado a considerar erroneamente o processo educacional como
integrado a um suposto processo evolutivo que tudo permeasse.
No entanto, o processo de desenvolvimento educacional,
implícito naquela definição apresentada para a educação, corresponde àquilo que
o texto bíblico relata quanto ao que ocorria com o desenvolvimento de Cristo em
sua infância e juventude:
• “Crescia o menino e se fortalecia, enchendo-se de
sabedoria; e a graça de Deus estava sobre Ele” (S.
Lucas 2:40). Eis aí um processo de crescimento, nutrição ou
desenvolvimento, harmónico – fortalecimento físico, sabedoria intelectual, e
graça espiritual.
• Em S. Lucas 2:52 é reiterado o processo educativo pelo
qual passava Jesus: “E crescia Jesus em sabedoria, estatura e graça diante de
Deus e dos homens”.
Voltando aos citados dois extremos excludentes do processo
educativo, levado ao nível da educação formal, verifica-se que o conflito entre
elas já havia transparecido nos tempos apostólicos, em particular quando o
apóstolo Paulo teve a oportunidade de discutir no Areópago com os filósofos de
duas correntes antagónicas – os epicuristas e
os estóicos. Epicuristas eram adeptos da estrutura
conceitual evolucionista introduzida por Epicuro desde o século quarto a. C.,
enquanto os estóicos, embora não sendo cristãos, eram adeptos da estrutura
conceitual criacionista, mantendo-se fieis às raízes tradicionais da religião
grega. (11)
Conforme o relato bíblico, naqueles tempos apostólicos havia
no mundo três grandes centros educacionais – Corinto, Éfeso e Atenas – nos
quais o cristianismo foi pregado especialmente pelo apóstolo Paulo, tendo então
ficado evidente o confronto entre as concepções distintas da educação pagã
(evolucionista) e cristã (criacionista).








.jpg)










